segunda-feira, 31 de março de 2014

4.7 - Comemorações

Anteontem fiz 47 anos e este é um acontecimento que precisa e merece ser registrado aqui no Blog-Diário.
As comemorações tiveram início na segunda-feira, quando meu amigo, irmão e confidente Robson me chamou pra jantar. Foi uma ótima noite, mas o restante da semana demorou a passar.
Na manhã de sexta-feira eu estava super ansioso pra curtir o final de semana. Meu outro grande amigo Stefan, me chamou para almoçar. Fomos eu, ele e nossas esposas. A conversa estava tão boa que quando saímos do restaurante meu relógio marcava quase 17 horas!
Minha filha havia dito que ela iria cozinhar pra mim no jantar. Ela faz uns pratos incríveis, e tivemos um jantar gostoso e aconchegante, só eu, ela, a Eneida e o Rafael.
Eu havia combinado com os filhos que gostaria de passar o sábado fazendo o trabalho voluntário que sempre faço. Eles reclamaram um pouquinho, mas me deixaram ir trabalhar com a Eneida.
Foi um dia especial. 
Logo de manhã, uma de minhas "clientes" me surpreendeu trazendo uma caixa de "cajuzinhos" (o doce que eu mais gosto!). Eu ADOREI!
Após o almoço, outras duas amigas, a Luciana e a Isabela, me presentearam com um lindo, enorme e maravilhoso bolo de nozes com cobertura de coco ralado que elas mesmas fizeram! Foi um gesto tão inesperado, tão legal! Eu ganhei o dia! Passei o resto da tarde pensando: - que bom poder comemorar o aniversário aqui, fazendo o que eu gosto, na companhia da Eneida... A vida tem sido muito boa pra mim.
E quando eu pensei que as surpresas já haviam acabado, ainda ganhei mais presentes: uma toalha ecológica (Obrigado Eliene!), uma garrafa de vinho (obrigado Irmão Ilson - o vinho vai pra Eneida, mas eu agradeço!) , um bolo de chocolate "low carb" que a outra amiga Isabela fez (delicioso!), e um colar conhecido como "Escapulário", presente da Mirtes - grande amiga. Lindo!
A todas essas pessoas, eu ficava sempre querendo dizer algo como "não precisava se incomodar...", mas eu achava o gesto e os presentes tão legais, tão..  Foi muito bom!
À noite jantamos em casa. Meus pais e meus sogros estavam lá, e a conversa foi bastante animada.
Ganhei de presente camisas, um caderno de anotações com uma mensagem belíssima escrita pelo meu sogro, e um par de tênis de corrida! A noite estava ótima e fomos dormir quase a uma da madrugada.
No domingo acordei tarde, tomei café com a Eneida e as crianças (não resistimos e comemos o bolo da Isabela e da Luciana!) e ficamos conversando sobre a noite passada.
Eram quase 11 da manhã quando eu saí pra correr.
#Partiu Corrida

Meu plano era dar a volta na Pampulha, coisa que eu nunca tinha feito nesse horário num dia quente. Mas eu estava muito animado, então tirei uma foto, postei no Facebook e #partiu Pampulha!
Os primeiros 6km foram muito duros por causa do calor. Na Igreja de S. Francisco parei (1 min 45 seg) pra comprar água e continuei. A água geladinha deu uma refrescada boa! Como a ideia era correr num ritmo bem lento (7min/km), o trote se transformou em um gostoso passeio.
O calor aumentou muito, talvez pelo horário. Minha camisa estava toda molhada de suor. No décimo km comprei outra garrafinha de água e ai aconteceu a melhor parte da corrida:
No sábado, eu havia conversado com a amiga Tatiana sobre a sensação de correr num temporal.
E eis que, justo no dia seguinte, bem no décimo km, cai uma chuva igualzinha à que eu imaginei na conversa!!!!
A chuva gelada, junto com a música gostosa, junto com o tempo abafado, junto com a chuva torrencial... Tudo isso estava FANTÁSTICO!!!
Tive que me segurar pra não aumentar o ritmo, de tão gostoso que estava o percurso! Gastei 2 horas e 4 minutos pra completar a volta e voltei pra casa encharcado! Encharcado mas muito contente!
Voltando pra casa todo molhado

Hoje estou sofrendo um pouco as consequências, as pernas estão doloridas, mas foi muito bom!
E assim se encerraram as comemorações do meu quadragésimo sétimo aniversário. Sinto-me com saúde, sinto-me forte e o melhor de tudo: sinto-me muito feliz.

É Nóis!

sexta-feira, 28 de março de 2014

53 minutos


Ontem foi dia de corrida pra mim! 'Dia' não, foi NOITE de corrida! Pela primeira vez desde que voltei da praia eu pude ir até a orla da lagoa e correr sossegado. Êta treim bom!
Cheguei em frente ao PIC às 19 em ponto e, após uma serie curtíssima de alongamentos (só pra constar nos autos), liguei o iPod e comecei a  curtição.
Foram 8 km feitos num ritmozinho suave e leve. Gastei exatos 53 minutos pra fazer o percurso ao som dORappa e de uma ou outra música estrangeira.
Mal tinha percorrido uns 500 metros e me dei conta de que estava correndo com os óculos (normalmente eu os tiro pra correr, por causa do suor).  Apesar do incômodo de não poder ficar limpando o rosto com a mão (pra não sujar as lentes), correr com os óculos foi bom porque pude observar  detalhes da paisagem e das pessoas que normalmente eu não enxergo.
Voltando pra casa

Quando eu estava no terceiro km, um senhor de uns 50 e tantos anos passou por mim correndo rápido pra caramba. Ele me chamou a atenção por causa da  velocidade e também pelo fato de colocar a camiseta para dentro do short, coisa que só os 'antigos' fazem. Aumentei o ritmo para tentar  acompanhá-lo e vi que ele transpirava muito. Sua pele negra brilhava por causa do suor, fazendo ressaltar os músculos das panturrilhas quando ele  trocava os passos. O cara estava em ótima forma e a única coisa que denunciava sua idade era o branco do bigode e dos cabelos. Tentei correr com  ele mas comecei a ficar ofegante (o sujeito estava a menos de 5:30 min/km, eu acho) e diminui o passo. Poucos metros depois ele olhou pro relógio e  parou de correr (talvez tivesse aumentado o ritmo no km final. Eu gosto de fazer isto às vezes). Continuei a correr sozinho, pensando no tempo em  que 5:30 era um ritmo razoável pra mim. Lembrei-me do meu recorde mundial nos 10km: 52minutos há 4 anos atrás, e então percebi que nunca mais
conseguirei este feito... Mas isto não incomodou. Hoje já não tenho grandes metas de tempo e corro apenas pelo prazer da corrida.
Agora que estou escrevendo este texto, vejo que gastei um minuto a mais (53min) para percorrer 2km a menos do que o recorde. É verdade que eu quis fazer um  treininho leve, e que conseguiria ir mais rápido se desejasse. De qualquer forma, esses números mostram que eu, que todos nós, ficamos um pouco mais velhos a cada dia. Quer dizer: o NOSSO CORPO envelhece a cada dia. Nossa mente terá sempre a idade que permitirmos que ela tenha, não é?
Depois da corrida, comprei a tradicional garrafinha de água e fui curtir meu 'premio' no banco da praça: deitei no banco e fiz um exercício de  relaxamento que estava bom pra caramba! O início foi complicado porque havia um grupo de pessoas que conversavam muito alto, mas consegui fazer 'abstração' olhando pras árvores e curti muito o momento de concentração e descanso. Depois de 10 minutos tirei umas fotos para postar aqui no blog e fui pra casa.
O Rafael havia chamado uns colegas pra lá e a casa estava bem animada. Comemos pão com presunto e queijo, tomando um café fresquinho que a Eneida  fez.
Quando a turma do Rafa foi embora, eu percebi que meu joelho estava um pouco dolorido. Deitei na cama e fiz uma sessão de auto acupuntura (sou bom nisso!).
A noite foi tranquila e o joelho amanheceu ótimo. Hoje à noite correrei novamente: 6km em um ritmo um pouco mais rápido. Depois eu conto como foi.
É Nóis!
suadão

Beba Água!


terça-feira, 25 de março de 2014

#Partiu Férias!


Estou off-line enquanto redijo este texto, então me ponho a pensar... Quanto tempo faz desde a última vez que escrevi algo no blog? Mais de um ano? Talvez...
Se por um lado sinto-me realizado ao lembrar do último post onde narrei minhas peripécias na mais longa corrida que já participei (os 42 km da Maratona do RJ), por outro lado sinto que perdi muito ao abandonar o blog, este meu diário pessoal. As cenas corriqueiras que vivi com a família, alguns dos momentos de êxtase ao correr sozinho pela orla da Pampulha, as trapalhadas com os fones de ouvido (sim, ainda tenho problemas com isso!)... Tudo isto poderia ter ficado registrado no PrimeiroKM, mas eu - em minha infinita preguiça - fui deixando a vida passar...
Agora estou confortavelmente deitado na rede da casa da praia (Piúma Inesquecível, obviamente!) lembrando do breve e inesperado encontro que tive no domingo com meus tios Gilberto e Rita (a Tia Rita, minha eterna madrinha maratônica) no meu restaurante preferido, "a verdadeira comida chinesa". Foi um momento breve. Breve mas descontraído e gostoso. Se eu não colocar isto AGORA no papel (digo, no blog) será um momento que se perderá nas minhas lembranças daqui a um ano ou dois. 
Mas por que lembrar disto daqui a dois anos?
Porque eu QUERO me lembrar! Foi por isto que criei o blog-diário, e é justamente por isto que o estou reativando agora (isto é, assim que eu achar uma lanhouse!).

Já que este é, ou deveria ser, um blog sobre corrida de rua, começo dizendo que já estou inscrito na meia-maratona de BH - edição 2014, que ocorrerá dia 11 de maio. Esta será a prova mais longa que participarei desde a maratona (já fiz outras provas de 21 km, mas não mais longe que isto) e é também uma das corridas que mais gosto!

Estou treinando (ou tentando fazê-lo) na praia durante esta semana. O pai do meu amigo (que também era meu amigo) morreu há 15 dias após lutar por mais de um ano contra um câncer. Passei as últimas semanas pensativo... E resolvi tirar uns dias de folga e fugir pra cá com meu pai e minha mãe.
Folga da mãe!

Viemos na segunda-feira, no batmóvel da Luíza. A viagem foi muito gostosa (eu ADORO dirigir na estrada. Adoro!), mas foi puxada demais para o meu pai. Ele tem Alzhimer, e sua mente ficou confusa desde que chegamos. Ele está bem, se alimenta direito, não sente dor alguma, mas às vezes não se lembra onde estamos. Ele olha para a varanda da casa, seu olhar se demora observando as redes... então ele comenta: "Esta é a casa de Rio Casca!" (cidade natal dele, onde ele nunca mais voltou desde que eu tinha 10 anos e meus avós morreram). Minha mãe explica com paciência que esta é a casa da praia, que ele comprou pra ela há muitos e muitos anos. Dá um nó na minha garganta e, coincidência das coincidências coincidentes - entra uma areinha no meu olho nessa hora. Dói um pouco.

Acho que dói porque eu podia ter aproveitado mais dele enquanto tive chance. Passei tanto tempo na vida tentando mostrar pra ele que eu fiz direito o que ele ensinou a fazer: trabalhar, escolher uma mulher bonita, casar-me com ela, trabalhar mais, criar filhos e vencer na vida. Passei tanto tempo fazendo isto que não vi quando ele começou a envelhecer. Deixei passar essa parte, e agora eu tô vendo que essa corrida não vai voltar mais pra mim...

Lanchando na estrada


Mas pera ai! há também a parte boa, sô! Aliás, toda a viagem tem sido "a parte boa". Começou na própria estrada: eu havia preparado com muito cuidado uma seleção de músicas que eu achava que eles iriam gostar. Deu tão certo que eu vi meu pai pelo retrovisor (ele e minha mãe foramm no banco de trás) batucando com as mãos o tempo todo enquanto minha mãe cantava os sambinhas do jeito dela. Paramos pra lanchar uma ou duas vezes, e então decidimos fazer outra parada para almoçar. Era uma churrascaria na beira da estrada, mas o balcão de saladas estava bonito (parecia tudo fresquinho) e decidimos ficar lá. Meu pai comeu bem, riu um pouco, resmungou um pouco. Uma hora e vinte depois, pegamos a estrada novamente.
o Batmóvel da Iza

Enquanto eu dirigia, minha mente viajou na maionese até um tempo em que ele era quem dirigia o carro nessa mesma estrada. Tínhamos que lanchar rápido (lembro particularmente de uma vez em que minha namorada foi conosco... Ela ficou puta da vida porque sempre tinha que largar o salgado na metade porque meu pai estava impaciente para prosseguir a viagem. Era constrangedor naquele tempo).
Em minha mente, eu fiquei bravo com meu pai no retrovisor. Por que é que tudo tinha que ser às pressas? A viagem na maionese prosseguiu: o que será que EU herdei desse comportamento? Sou bravo demais com as crianças... Eu quero melhorar isto. Aliás, eu TENHO que melhorar isto enquanto ainda posso...
As horas se passam, fica todo mundo quietinho dentro do carro (será que eles ouviram meu pensamento? Ou será que minha cara de mau me denunciou?). Em determinado momento olho pelo retrovisor e vejo os dois dormindo. Pego o iPhone e consigo registrar a cena para a posteridade.
Tirando um cochilo


Minha mãe dorme um sono gostoso no ombro dele. Do jeito dele, ele conseguiu. Sempre foi bravo, turrão, duro. Mas tinha alguma coisa dentro dele que fez com que ela o acompanhasse, que aprendesse a gostar dele, a confiar nele, a cuidar dele. Meu pai sempre foi um cara honesto e trabalhador. Nunca presenciei um momento sequer em que ele se aproveitasse de alguma situação para 'levar vantagem'. "Água dá, água toma", dizia - referindo-se a uma enchente que levou a casa de um político corrupto em sua cidade natal quando ele era criança.

Aqui em Piúma a vida tem sido boa. Sinto verdadeiro e sincero prazer em fazer pequenas tarefas manuais e, com elas, ficar perto dele.
Eu dou banho, levo ao banheiro, troco a roupa, limpo. Também arrumo a cozinha (sou PERFEITO nisto!) e desenvolvi sozinho (após uma experiência inicial desastrosa) uma técnica que me permite fazer suco de laranja com mamão para ele (é bom para o intestino). Tenho feito todos os dias e ele parece gostar muito.
Hoje, além de dar o banho, eu fiz a barba dele. Fui uma coisa tão intensa, tão marcante, que até agora eu fico engasgado de pensar. Exceto por uma única vez há alguns anos, quando ele esteve internado no hospital, eu nunca fiz a barba dele. É um pouco como se eu fosse o pai agora.
Dói.
Mas tem a parte boa também: pela primeira vez na vida (antes, no hospital eu usei barbeador elétrico) eu pude passar a mão pelo rosto dele. Foi gostoso. Foi gostoso pra caramba!
Depois do lanche, fomos à praia. Minha mãe nadou no mar e caminhou enquanto eu e ele ficamos lendo e tomando água de côco, ele me repetindo sempre a mesma reportagem do jornal.
Consegui ler bastante e preparar boa parte do meu trabalho do próximo sábado.
Por volta do meio-dia voltamos pra casa e eis-me aqui, deitado na rede (morra de inveja!!!) olhando as pessoas passarem na rua.
Eu lavei a roupa!

Hoje eu acordei às 4:40 (depois de ter ido dormir exatamente à meia-noite, por ter ficado conversando na varanda com minha mãe. Mas essa história eu escrevo depois. Não há como esquecer) e fui para a beira da praia esperar o sol nascer.
O espetáculo começou às 5:30h, e foi um show incrível! Tudo muito bem ensaiado: as luzes batendo nas nuvens, a ilha estava no lugar certinho para que o astro principal pudesse surgir atrás dela! Quando ele apareceu na tela, foi raio de luz pra tudo quanto é lado! As fachadas dos prédios foram iluminadas, a luz intensa refletia na água do mar deixando um brilho indescritível! Um show só pra mim e para os poucos pescadores e turistas que acompanhavam a cena. Uma coisa absolutamente corriqueira, um show que acontece todo dia. Totalmente grátis e sem sorteio! E que quase ninguém vê! Muitos até olham, mas pouca gente enxerga isto com os tais "olhos de ver". Hoje eu vi! Sorte a minha!










Somente hoje estou conseguindo postar o texto. Chegamos bem de viagem e já estou no lerê. Esta semana terei pouco tempo pra correr, mas pretendo dar a volta na Pampulha (18 km) no domingo. Depois eu conto como foi!



Esta vista é incrível!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Maratona do Rio - 2012


Caro amigo leitor,
Antes de mais nada, peço-lhe desculpas por demorar a dar notícias da Maratona, mas é que ontem eu estava emotivo demais para escrever (além do cansaço, claro!!!).
É engraçado... eu passei meses e meses pensando em como seria este post. Às vezes, quando estava fazendo um treino difícil, eu pensava que não conseguiria completar os 42km e imaginava como iria lhe contar isto, de que forma iria escrever. Outras vezes, quando eu terminava um treino feliz da vida por ter corrido na chuva ou com uma música diferente, eu me sentia animadíssimo e pensava em como seria legal se eu pudesse lhe contar que venci a mim mesmo, que completei a maratona do Rio.
Hoje chegou o dia que tanto aguardei: o dia de escrever o derradeiro texto do blog que teve início quando percorri o primeiro KM do treino para a maratona que poderia mudar a minha vida.
Tenho ouvido muito sobre a lei da selva nro 322, que manda colocar TEXTOS CURTOS nos blogs. Mas hoje quero que o amigo leitor tenha paciência, porque imagino que este será um texto beeeem longo (eu tenho tanta coisa pra escrever...).
Para quem vem acompanhando minha trajetória mas não corre, inicio o relato com uma frase que li no blog Baleias: "... Eles me amam mas não são corredores. Eu também os amo e os entendo porque sei que não têm a dimensão do que significa desistir de uma corrida que você, não precisa fazer se não quiser.
Quem corre sabe o quão profunda esta frase é, e o quanto de verdade ela encerra.
Quando iniciei o treinamento para o Rio, eu me comprometi comigo mesmo que daria o meu melhor, que faria o que pudesse para ir o mais longe que conseguisse na tal maratona. Abri o blog primeiroKM na intenção de deixar registrado para meus filhos, e para os filhos dos meus filhos (e para os filhos destes, se ainda existir Internet até lá) que um dia um cara normal, gordo, hipertenso e com quase 45 anos de idade teve um sonho, e deu duro pra transformar este sonho na realidade mais bonita que ele conseguisse fazer.

Que você me perdoe uma vez mais, caro leitor, mas acho que estou escrevendo mais para mim mesmo do que para você. Isto é falta de consideração, eu sei. Afinal você acompanha meus textos, comenta os posts e - seguramente, torce por mim. Mas ainda estou emotivo, e gostaria que esta emoção ficasse registrada aqui no blog... (tô viajando, né? Texto mais sem sentido esse... Eu hein?!)

Mas voltemos à história da maratona.

Para entender o que houve na corrida, é preciso ver o contexto. É por isto que começo relatando a véspera da prova.
O sábado amanheceu ensolarado e, já no café, fazíamos planos para curtir a praia carioca. Nosso amigo Railer, que viria a se tornar peça fundamental nessa história toda, tamanho o suporte e ajuda que nos deu, combinou de nos encontrar em Ipanema. Fomos de metrô (coisa chique, pra quem é de BH). Nosso anfitrião conhecia o dono da barraca, de modo que ficamos confortavelmente instalados, com direito a cadeira de praia e quebra-sol (fundamental para corredores branquelos).
Andando de metrô

Chegando na praia

Mal aportamos e eu e o Rafael já corremos pra água (sabe como é, né? Mineiro quando vê mar fica louco! O El já tem isto no sangue!), de onde só saímos quando a pele começou a enrugar. Curtimos a praia até umas 14 horas e fomos almoçar um restaurante muito bonito que fica ali perto. Uma curiosidade: a praia deles é - acredite se quiser - ainda mais legal que Piúma Inesquecível: até banheiro eles têm (R$ 1,50 por pessoa. Mas eu pagaria qualquer coisa pra poder trocar de roupa antes de ir almoçar). Muito chique!

Depois do almoço, fomos caminhando até a lagoa Rodrigo de Freitas, de onde só saímos quando o sol começou a se por. Voltamos ao hotel para banho e embelezamento (embelezamento só para as mulheres, para mim e para o El foi só tomar banho e trocar de roupa mesmo!) e de lá seguimos para o restaurante La Mole, lugar muitíssimo agradável onde o amigo Miguel Delgado havia me convidado para jantar.
Chegando no restaurante para jantar

pode não parecer, mas estamos com fome!

Conhecer pessoalmente "os Baleias" já daria um post à parte! Quando cheguei ao restaurante, o Miguel ainda não havia chegado. Mesmo assim, fui até a mesa-Baleias para saldar os atletas que lá estavam. Qual não foi minha agradável surpresa quando eles me cumprimentaram efusivamente, muitos me chamando... PELO MEU NOME!!! Como diria minha filha: foi Doido demais!!! A noite de confraternização ficou completa quando finalmente o Miguel chegou. Tirei foto (eu queria pedir autógrafo, mas fui impedido por meus familiares sob a justificativa de que seria muita "pagação de mico") com ele e peguei valiosas dicas dos experientes Baleias, que muito me auxiliariam no dia seguinte.
Encontro com os Baleias
Matando a fome!
Ficamos fortinhos depois do jantar :)

Cheguei de volta ao hotel às dez da noite, quando teve início o ritual de separação da vestimenta que o "grande guerreiro" aqui iria usar na batalha que me aguardava ao raiar do próximo dia. Como em todas as corridas, a Eneida pregou o número de peito na camisa (tive que usar o plano B e correr com outra blusa, porque a do kit - para meu desespero - não tinha mangas. Minha pele sensível e delicada não resistiria tanto tempo sob o sol que eu imaginava, estaria presente).
Quando finalmente fui deitar, estava mais ansioso do que noiva no casamento. Mesmo assim, com a ajuda de alguns... alongamentos, consegui dormir (relativamente) tranquilo.
Três e quarenta e cinco da madrugada eu já estava de pé. Comi pão integral com requeijão, tomei suco de laranja e fui me aprontar. Parecia que eu era um piloto de fórmula 1 que estava vestindo macacão, capacete, luvas...
Empanturrei as partes masculinas de vaselina, vesti o short com cuidado, calcei meias e tênis. Eu não estava nervoso. Ao contrário, estava curtindo aquilo. E a Eneida lá, acordadíssima às 4 da madrugada ouvindo meus planos para a "batalha".
Depois de mil anos, finalmente deixei o quarto do hotel. O Carlos e o Toninho (meu xará, treinador do Carlos e dono da Movimenta Assessoria Desportiva) já estavam lá.
Tiramos fotos para que nossa saída do hotel ficasse guardada para a posteridade e pegamos o taxi que nos levaria ao ponto dos ônibus da Maratona.
Foi apenas ao deixar o saguão do hotel que percebi que... ESTAVA CHOVENDO!!! Aquilo eu não previ! Mas tudo bem, ao menos não correríamos sob o sol do sábado.

Foi quando chegamos ao local de embarque que a ficha caiu pra mim. Lá eu finalmente compreendi o que eu estava por tentar fazer. Era noite ainda, e milhares (muitos milhares, muitos milhares mesmo!) de pessoas em trajes de corrida andavam de um lado para o outro.
E eu também estava lá.
Eu era um deles.
Entramos no ônibus, que partiu logo em seguida. De repente fiquei mudo, pensativo. Enquanto o ônibus fazia a viagem para o Recreio dos Bandeirantes (1 hora e 10 minutos até o destino, sem parada!) eu também ia fazendo comigo mesmo uma espécie de "viagem". Meu pensamento voltou no tempo e eu me pus a pensar em tudo que fiz para que aquele dia finalmente chegasse.
Lembrei das pesquisas que fiz na Internet, dos blogs que acabei conhecendo. Lembrei dos conselhos da Yeda, blogueira, corredora e amiga, a quem ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Lembrei do Ricardo, que me emprestou o livro mais motivante já escrito sobre corrida de rua. Pensei muito nos Baleias e na forma com que encaram o esporte, no modo otimista que eles têm de enxergar as coisas.
Pensei na minha tia Rita, a quem elegi para madrinha desta empreitada faraônica. Quase pude reler mentalmente os comentários carinhosos que minha mãe SEMPRE me deixou lá no blog. Puxa! foi tanta coisa... Lembrei dos treinos, do medo de correr depois do acidente de carro, do problema da pressão alta, da falta de tempo para treinar - justamente no mês de junho...
Mas mesmo com tudo isto eu estava ali! Olhei pro Carlos, que seguia do meu lado no ônibus e senti uma sensação de calma e segurança. Eu não estava sozinho.
De certa forma, já me sentia vencedor.
Tudo bem, talvez tenha sido só a "teoria do contente", como diz o Stefan (se eu não completar a prova, ao menos cheguei até aqui). Mas ainda assim, o sentimento de vitória já estava em mim. Eu consegui disciplinar meus treinamentos, treinei meu corpo e minha cabeça. Eu me melhorei. E isto era - sem dúvida - uma vitória para mim.

O pensamento foi interrompido quando o ônibus chegou ao local da largada. Chovia forte e, por sorte, conseguimos nos abrigar sob uma marquise. O relógio marcava 6:10 da manhã, e já havia gente de tudo quanto é canto do mundo espremida sob a laje.
Conversamos animadamente sobre muitos assuntos. Não sei se foi estratégia do Toninhoo ou não, mas a conversa não foi sobre corrida. Fizemos conjecturas sobre a luta do Anderson Silva (nenhum de nós assistiu, claro!), falamos de comida, da cidade do Rio e de um monte de outras coisas. Faltando uns 15 minutos para começar a prova, fui ao banheiro da morte (de onde, felizmente, saí com vida) e me dirigi para a largada.
Sete e trinta. Uma sirene alta marcou o início da prova. Meu coração disparou e um arrepio percorreu minha espinha. Agora não tinha mais volta. Como em tantas e tantas vezes noutras corridas, passei pelo pórtico de largada, zerei o cronômetro, fiz uma breve oração e ingressei uma das atividades mais prazerosas da vida.
De repente me vi correndo bem no meio da multidão! Uns sorriam, outros gritavam, outros faziam piadas. Amigos corriam lado a lado. Havia grupos de cinco ou seis corredores correndo juntos e conversando animadamente.
Liguei o iPod, me desliguei do mundo e apenas corri. Putz, caro leitor! Se você não corre, não conseguirá entender como é (o que é uma pena). Não consigo colocar em palavras a sensação de liberdade que me inundou, a mesma que eu via estampada nos rostos dos que corriam comigo. O mar agitado, a chuva fina, o vento frio. Uma reta que parecia não ter fim...
Era o caminho a ser percorrido. Aquela era a batalha, a minha batalha. Eu quis estar ali, lutei pra isto. Treinei, me esforcei. E eu ESTAVA lá! Nunca na minha vida vou esquecer aquele início de prova. Nunca.
Railer se preparando para a Family Run

O Carlos e o Toninhoo seguiram na frente, isto já estava combinado: cada um iria correr no seu próprio ritmo, tentando superar seu desafio pessoal.
Até o sétimo quilômetro não ultrapassei uma pessoa sequer. Ao contrário, todo mundo passava por mim. Eu achei aquilo estranho, mas mantive minha passada. Mesmo que eu fosse o último a chegar, mesmo que eu nem chegasse no final, tudo já tinha valido a pena - e eu não iria desperdiçar aquela corrida tão gostosa tentando fazer um tempo para o qual não estava preparado. Segui meu caminho com oRappa cantando pra mim.
Mesmo sem sede, bebi um pouco d'água e Gatorade em todos os postos. Aliás, na minha modesta opinião, a organização da prova foi perfeita! Havia água e Gatorade a cada 5km, além de pontos de apoio com ambulâncias.
Lá pelo km 16 ou 17 a chuva apertou e o vento ficou muito forte. Felizmente ventava a favor do percurso, o que ajudou um pouco na subida. Em determinado momento, uma corredora passa por mim, me dá um tapinha no ombro e diz: "vai com Deus, Toninho! Boa prova!", era a Lana Gomes do grupo Baleias, a simpatia em pessoa! Retribui os votos de boa corrida e deixei a moça seguir em frente. Esses Baleias são gente boa demais!...
O tempo passou e quando vi a placa de 20km fiquei surpreso! Acho que eu me desliguei tanto que nem percebi direito que já me aproximava da metade da prova. Foi só pensar nisto e logo comecei a me sentir cansado! "A mente da gente é mesmo uma coisa poderosa", pensei. Por sorte, lembro que a música mudou e meu pensamento voou para algum outro lugar.
Na subida do elevado vi um cara de camisa cinza acenando pra mim. Era o Carlos! Eu pensava que não o veria mais na prova e de repente lá estava ele! Mas não tentei alcançá-lo. Preferi seguir meu ritmozinho de 6:30min/km. A subida foi dura, mas ver o mar batendo no penhasco lá embaixo foi tão bonito que nem me lembro de ter sentido cansaço. No meio da subida encontrei o Carlos novamente e passamos a correr lado a lado.
No alto da Niemeyer, uma surpresa: uma taboa que apoiava os copos d'água saiu voando com o vendo e atingiu em cheio minha canela esquerda. Não senti dor, mas fiquei preocupado. O cara da organização ajudou a retirar a madeira que - aliás - havia atingido também uma corredora que estava ao nosso lado. Nem parei. Continuei correndo e segui em frente.

À medida que as placas de quilometragem foram passando, meu corpo foi sentindo o cansaço. Lá pelo Km 30 minhas pernas já doíam e a sensação provocada pela roupa molhada incomodava. O otimismo deu lugar à introspecção e precisei fazer força para me concentrar nas passadas.
O iPod começou a tocar uma música que eu ainda não havia ouvido. Tentei prestar atenção na letra, até para me distrair da dor nas pernas, e então outra coisa estranha aconteceu. Acho que o esgotamento do corpo, as roupas molhadas e as horas consecutivas correndo sem parar abalam o lado psicológico da gente e nos deixam mais emotivos. Zé Ramalho cantava com Ivete Sangalo um frevo que dizia:

"...Seu moço eu venho de longe
Não sei onde vou chegar
Não tenho medo de seguir
Mas tenho medo de voltar

Acreditar no que eu acreditei
E trabalhar para quem trabalhei
Amar, amar quem eu já amei
Passar caminho que eu já passei".

Lembrei de meus vinte anos de casamento, de tudo que fiz de errado, do que consegui corrigir e das cicatrizes que deixei em quem amo. Pensei nos filhos, eles que - para mim = ainda parecem duas crianças pequenas e indefesas, à mercê de um pai por vezes ausente e distante.

Não acho que é vergonha dizer que lágrimas grossas correram dos meus olhos e se misturaram ao molhado da chuva. Não segurei nada, chorei mesmo (obviamente, deixei o Carlos ir na frente, para ele não presenciar aquela cena de novela)!
E aquele choro me limpou por dentro. Olhei para a placa e vi que estava no km 37. Senti a alma leve e solta, que contrastava com as dores no corpo todo moído.
Nos quilômetros finais vi muitos corredores parando por causa de dores ou cãibras. Fiquei com medo de também eu não conseguir terminar. As pernas estavam muito pesadas e meu ritmo diminuiu para 6:40 min/km (só olhei pro relógio umas três vezes durante toda a prova). Faltava pouco, mas as placas dos KMs nunca chegavam.
A placa do 39o Km apareceu. As pernas estavam pesadas e deu vontade de caminhar um pouco. Mas faltavam "só" mais três quilômetros. Era tão pouco! Aumentei o volume do som e tentei me manter concentrado em não diminuir o ritmo, ao menos até o próximo quilômetro. Pensei no meu pai, e aquele pensamento me deu força. Fui correndo, correndo, até que - depois de mil anos - a placa do km 40 finalmente apareceu. Gritei com força: "Pai, este km foi pra você!" É lógico que o manteiga-derretida aqui deu mais uma seção de chororô.
Faltava pouco! Eu ia terminar, eu TINHA que terminar!
Era a placa mais bonita da corrida: 40km! Um número redondo, grandão! Uma distância que eu nunca havia alcançado antes.
Com o ânimo redobrado, continuei o mais firme que minhas precárias condições físicas permitiram. As pernas doíam pra caramba e comecei a sentir muito frio.
Continuei correndo, agora com muita dificuldade. Como gritar durante a prova já estava virando moda, deixei a emoção rolar no melhor estilo sertanejo/novela mexicana e, num certo momento, gritei bem alto o nome da minha filha. Um corredor que estava à frente também gritou um nome que não me lembro e disse "'Fulana', eu te amo!". O pessoal que corria ao redor bateu palmas e ouvimos frases de incentivo. Foi emocionante.
As pernas passaram a ter vontade própria. Ficaram bambas e queriam parar. O frio que eu sentia aumentou bastante. Não estava tão seguro de que conseguiria chegar ao final.
"Quando não conseguir mais correr, trote.
Quando não conseguir trotar, caminhe.
Quando não conseguir caminhar, use uma bengala.
Mas nunca se detenha."
A frase de Madre Teresa de Calcutá veio à minha cabeça. Aquilo era um sinal, só podia ser um sinal! Deus estava comigo. Espíritos Bons estavam comigo. Senti a presença dos amigos que que - sem dúvida - estavam torcendo por mim e me apoiando com bons pensamentos. Eu não ia parar.
Eu não parei.
A maior surpresa de todas estava reservada para os momentos finais. Eu havia combinado com a Eneida que ela NÃO IRIA para a chegada (sabe como é, Rio de Janeiro, violência, crianças cansadas...). Como este "combinado" foi uma ORDEM DIRETA E EXPRESSA que dei a ela, eu nunca iria esperar que a esposa - depois de 20 e tantos anos - desse para me desobedecer. Além do mais, estava chovendo (sabe como é: mulher, cabelo, chuva. Não! Ela não iria MESMO!).

Mas nos metros finais, quando eu já estava entrando no funil de chegada, vejo minha família inteira sorrindo e gritando pra mim!
Nada, nada no mundo paga isto!
E, pela terceira vez, chorei pra caramba. Desta vez, o mico foi bem diante da plateia! Mas não deu pra evitar (foi mal, família), era emoção demais para um coração cansado de tanto correr.
Dei a mão pro El e cruzamos juntos a linha de chegada, eu chorando e ele me olhando com cara de espanto (acho que ele ainda não tinha visto o pai naquelas condições!).

Todo mundo me abraçou. O Carlos, a Fernanda e o pequeno Tiago também estavam lá. O Railer veio correndo e, precavido como sempre, já trazia na mão um spray anti-inflamatório.
Foi uma grande festa!
Passada a emoção da chegada, fui pegar minha merecida medalha - e ai, outra surpresa: ao invés de simplesmente me entregar o objeto, o funcionário me chamou pelo nome (nossos nomes estavam inscritos no nro de peito) e me disse algo como: "Antônio, meus parabéns por ter completado a maratona do Rio. Esta medalha é sua". Pode parecer bobagem, mas esses detalhes fazem diferença pra quem corre. Eu adorei.














Como o bebum que não se lembra de como voltou pra casa, também eu não consigo recordar como tive forças para ir caminhando até a casa do Railer.
Graças a Deus, tudo funcionou perfeitamente!

Foi, sem dúvida alguma, a melhor, mais bonita, mais longa e mais emocionante corrida da minha vida!
Mesmo que outras maratonas venham (já nem sinto mais o peso de meus 45 anos, e nem os 92 quilos do meu corpitcho me metem tanto medo) no futuro, mesmo que existam lugares mais belos, corridas ainda mais organizadas, mesmo assim, eu nunca me esquecerei que em 8 de julho de 2012 eu corri SEM PARAR PRA NADA durante exatas 4 horas, 44 minutos e 44 segundos (saiu o resultado oficial no site) para percorrer os 42 quilômetros e 200 metros mais incríveis da vida.
Eu pensava que, com a realização da maratona e o consequente término do período de treinamentos, encerraria também o blog primeiroKM (já que ele foi criado especificamente para o registro desta jornada). Mas fiz amigos pelo blog, voltei a ter contato pessoas queridas (oi Tia Rita!), aprendi a gostar de escrever (ainda que você não sinta o mesmo gosto em ler o que escrevo! Sei que não sou bom nisso, mas gosto de escrever minhas aventuras!), de forma que - se o amigo leitor continuar tendo paciência comigo e continuar me dando a honra de sua presença neste espaço, quero continuar com o blog.
Acho que a coisa ainda não acabou. Ainda há corridas por fazer, treinos pra relatar, experiências pra compartilhar...
Então, ao contrário do que sempre pensei em fazer, não encerrarei este post com o "Adeus Amigo".  As frases finais do texto serão:
- muito, muito obrigado por ler meus textos, aguentar minhas lamúrias e viver comigo a experiência proporcionada pela corrida de rua.
- até breve amigo! Domingo voltarei a correr, se Deus quiser. Semana que vem, te conto como foi!
É nóis!!!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A caminho

Dicario de bordo - São três e trinta da tarde e estou escrevendo de dentro do avião que está nos levando para a grande aventura da primeira maratona, no Rio. Estamos em um grupo de 20 pessoas e a turma está muito animada. No embarque tiramos fotos, conversamos muito, fizemos piadas e brincadeiras. Mas notei que alguns de nós estão mais ansiosos e apreensivos que os outros. Só agora a ficha está caindo para mim. Começo a compreender o tamanho do desafio que me aguarda. E isto está causando um certo frio na minha barriga. Assim que estacionei no aeroporto, cumpri o que havia combinado comigo mesmo: me desliguei de todos os problemas do dia a dia e estou tentando relaxar o máximo possível para aproveitar o passeio. Meu pensamento está agora em tudo aquilo que fiz para chegar até aqui (e não, não estou me referindo à dificuldade para estacionar). Foram vários os meses que tenho passado com esta idéia fixa da corrida na cabeça, com esta distância de 42km badalando no meu cérebro como o sino da igreja. Fazendo uma auto-análise, concluo que o mais difícil durante este tempo não foi treinar. Ao contrario, isto foi gostoso. O complicado foi me manter focado. Foi conseguir tempo para correr, foi conciliar trabalho e família com o treinamento. Foi não desistir quando o desanimo bateu, nem quando a pressão arterial subiu, nem quando a obra deu problema. Mas eu estou aqui! E, só por isto, já me sinto vencedor. Venci o cansaço, venci o stress, a preguiça nos dias de chuva e os problemas do cotidiano. A conclusão a que chego é de que o esforço valeu a pena. Sinto-me mais forte, mais alegre e mais confiante do que quando comecei a treinar. Se vou chegar no final da prova, isso eu realmente ainda não sei, mas sei que vou curtir para caramba cada quilometro que eu conseguir percorrer. E quem sabe, se eu me distrair com o visual, com aquele clima de corrida, com todo aquele ambiente, quem Sabe em algum momento, cinco ou mais horas depois de começar a correr, eu não me veja de frente para o pórtico de chegada? Sonhar não faz mal algum, né?!

Agora são dez da noite. Acabamos de chegar do jantar e estamos confortavelmente instalados num hotel aqui em Copacabana.


Encerro este post com a foto que tirei com o Ricardo no domingo em BH. O Ricardo e sua família têm me dado muito apoio nesta jornada rumo à maratona. A frase na camisa dele é também um incentivo para que eu chegue no final.Agora vamos descansar que amanhã tem mais.Postarei um novo texto amanhã, contando como foi a véspera do dia D, e a quantas anda o frio no meu estômago.É Nóis!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Preparativos




O penúltimo final de semana antes do grande dia da Maratona do Rio (8/7) foi cheio de atividades. No sábado, acordei de madrugada para ir trabalhar em São Paulo. Felizmente tudo correu bem, mas só cheguei de volta em casa às 9 da noite - e com uma fome de leão (não há tempo para almoço em SP, só um sanduíche leve).
Eu estava exausto e pensei em só conversar um pouco com a Eneida durante o jantar e depois cair na cama. Mas a conversa estava boa e resolvi trocar a lista de músicas do iPod antes de dormir. Eneida ficou lá comigo e fomos conversando e ouvindo as músicas, ela sugerindo umas, "vetando" outras (funk carioca não! PelaMorDeDeus!). Quando dei por mim, já passava da meia-noite!
Preparei o tênis, roupa e acessórios para o treino de domingo e fomos dormir.
Como a programação social para ontem era intensa (a Eneida queria ir ao Shopping comprar uma sandália para a Iza e depois iríamos à festinha de aniversário do Miguel - que, por sinal, estava ótima!), tive que ir correr bem cedo, para conseguir voltar a tempo para a "maratona de atividades".
Faltando cinco para as oito, iniciei o penúltimo Longão antes do grande evento. Desta vez eu estava preparado (ou achava que estava!): levei dois saches de gel para me alimentar durante o treino, dinheiro pra comprar água e gatorade, e ainda uma barrinha de cereal para comer depois da corrida.
Meu plano era correr o tempo todo a 7min/km, porque este é o ritmo que pretendo correr no Rio. No começo foi difícil porque toda vez que eu olhava pro relógio, a velocidade estava maior que o planejado e eu tinha que diminuir a marcha. Perto do quinto quilômetro um corredor me ultrapassou e notei que ele corria com o "inquebrantável manto coral", camisa típica da equipe Baleias. Apertei o passo até alcançá-lo e perguntei pelo Miguel.
Após me dizer que Miguel estava bem, Ailton (este é o nome dele) continuou conversando comigo sobre corridas, foi um dos papos mais legais, mais descontraídos que já tive com outro corredor. Ele me disse que corre há pouco menos de 4 anos e que estava treinando para a maratona do Rio. Quando eu disse que também correria lá, a conversa ficou mais animada ainda. Ailton me falou de sua rotina de treinos e de como a corrida mudou sua vida.
Ele até me convidou para entrar no grupo Baleias (achei super-legal o convite, mas sou um lobo solitário, não sei se tenho a "alma Baleias" em mim), o que me deixou emocionado. Seguimos juntos até o sétimo km e eu parei pra comprar água.

Ailton continuou sozinho e eu fiquei pensando em como o espírito de confraternização está presente neste esporte...
Peguei a água rapidamente (só 38 segundos de pausa) e voltei a correr, desta vez no ritmo mais lento: os meus 7km/min. Na altura da Igreja de São Francisco, a rua estava fechada para uma corrida que estava acontecendo. Diferentemente da maioria das provas, a largada desta - como vim a descobrir depois - havia sido no Marco Zero. E o mais curioso: durante o percurso, fui percebendo que haviam pouquíssimos homens na prova. Achei aquilo estranho e pensei "é, as coisa tão mudanu mesmo. As muié vão invadí é tudo quanto é lugá dessi mundão grande sem porteira"...
Só quando passei pelo pórtico de chegada é que descobri que a corrida era SÓ PARA MULHERES (ai é que eu entendi porque todos ficavam olhando desconfiados pra mim e pro Ailton, quando corríamos lado a lado no canto da rua... Vexame total!)

A temperatura na casa dos 20 e poucos graus contribuiu muito para a sensação de bem-estar que eu estava sentindo. Estava tudo perfeito! No nono km abri o primeiro gel (morango silvestre, eu acho). Não estava nem um pouco com fome, mas a idéia era justamente me alimentar ANTES da fome chegar, pra ver como eu me sairia no dia da maratona. Tomei o gel, bebi o resto da água que eu estava guardando, aumentei o volume dORappa e continuei no meu ritmozinho cuja média estava em 6:45km/min (tive que correr um pouco mais rápido no trecho em que acompanhei o Ailton). No décimo quarto km parei novamente pra comprar água (42segundos) e decidi... VOLTAR!
Meu plano inicial era fazer 24km, mas pensei "se eu voltar por onde vim, farei 28km. Está tudo tão gostoso que seria uma pena desperdiçar esta manhã", e lá fui eu: fiz a volta e saí correndo feliz da vida com a garrafinha de água na mão.
No km 18 abri o segundo sache de gel, tomei com um gole d'água e continuei firme. Depois de algum tempo tive outra idéia maluca: "e se eu entrar na praça e correr em direção ao Ouro Preto? Poderia 'arredondar' o treino para 30km!" Ai eu me animei de vez! Contornei a praça e corri dentro do bairro até o Garmim marcar 1km. Retornei para a lagoa e parei pela última vez comprar gatorade. Mal recomecei a correr e me bateu uma fome INEXPLICÁVEL! o estômago roncou e a sensação foi muito estranha. Sem pensar em mais nada, peguei a barrinha de cereal que estava guardando pro final e mandei ver.
Logo na primeira mordida, percebi a burrice que havia feito. o farelo se transformou em um bolo na minha boca e eu não conseguia engolir. Que coisa esquisita: você morrendo de fome, a comida na sua frente e você não consegue comer. Irgh!!!
Como eu estava correndo enquanto comia, o jeito foi tentar beber o gatorade, mas eu estava morrendo de medo de engasgar.
A luta perdurou por uns bons 500 metros e, felizmente, tudo acabou bem. Mas ficou a lição: se grandes cientistas desenvolveram comida em gel, algum motivo eles tiveram. Nota mental: barra de cereal durante a corrida não funciona - MESMO!

Me recuperei do susto e continuei firme nos 6km finais. A esta altura a mente estava tranquilíssima, mas o corpo não estava com esse bom-humor todo. A perna direita reclamava com a esquerda, os ombros queriam subir no pescoço...
Usando uma abordagem mais psicológica para resolver a situação, tentei desenvolver a técnica do domínio da mente sobre o corpo. Trata-se de um exercício em que o cérebro fica falando o tempo todo: "vai corpo! vai corpitcho! Não pare agora!", mas o corpo - que não estava nem ai - se rebelou de vez e mandou a mente se fulminar: "vá se fulminar, mente! Não é você que está se desmanchando de suor aqui! Não me enche o saco! Aliás, não me enche parte nenhuma!"
Era uma batalha de vida ou morte (mais morte do que vida) que se travava diante - e dentro - de mim! Felizmente, passou um casal de corredores e resolvi acompanhá-los. O corpo fez uma trégua com a mente e seguimos os três - eu, meu corpo e minha mente - tentando acompanhar os dois corredores. O iPod começou a tocar a música da Adele (If It Hadn t Been For Love. Um solo de banjo fantástico!) e tudo virou festa de novo.
Faltando exatamente 1000 metros para completar os 30km o cansaço voltou com força, mas nesta hora a mente já havia ganhado a guerra. Eu fiquei dizendo mentalmente para mim mesmo: 900 metros, 800 metros... Quando dei por mim, já estava vendo o carro estacionado lá no final!
Eu consegui, amigo leitor! Eu corri 30km!!! Você acredita nisso?????!!!!! UHU!!!!
Infelizmente não houve tempo para a tradicional comemoração. O relógio já marcava 11:24 da manhã. Entrei no carro e já fui ligando pra casa.
Minha família tem uma característica interessante: todo mundo fica mal humorado quando está com fome. Ontem não foi diferente: encontrei todos com cara de poucos amigos em casa e tive que usar todos os meus poderes para resolver a situação. Tomei banho rápido, coloquei uma roupa e saímos correndo pro restaurante. Nunca na minha vida eu achei a comida do Fazendinha tão gostosa!
De lá, seguimos para o shopping pra comprar a tal sandália da Iza. A essa altura meu corpo já havia esfriado e minhas pernas (aquelas mesmas que estavam brigando uma com a outra na corrida) ficaram duras e doloridas que eu quase não conseguia me mexer. Nunca fiquei tão feliz por ter comprado um carro que não precisa passar marcha! Mas mesmo assim doía tudo!
Minhas "partes masculinas" ficaram assadas e aquilo incomodava bastante! Felizmente, não fiquei com bolhas nem dores nos pés, mas as pernas doíam pra caramba! No caminho, eu rezava o tempo todo para que houvesse uma poltrona livre no saguão do shopping.
E Deus existe! Prova disto é que a poltrona estava lá, só me esperando!!!
De lá, fomos para a festinha do Miguel (tinha uma canjica de amendoim deliciosa!). Na saída, eu só conseguia pensar na minha cama!
Mas a programação ainda não havia terminado. Fomos para casa dos meus pais (graças a Deus, tudo bem com eles!), de onde ganhamos da minha mãe uma tigela com massa para pão de queijo e lingüiça com cebola para o recheio!
Acabei indo deitar lá pelas dez da noite. Mas foi um dia inesquecível!

Não sei se estou pronto para a maratona, mas esse treino de ontem animou bastante!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Minha Maratona de 5km - por Eneida Freire


Caro leitor,
Ao postar o relato de minha participação na MMIBH (prova mais sofrida que já corri), pedi à companheira Eneida (gatinha que tem me aturado há mais 20 anos) que deixasse aqui no blog o registro de como foi sua participação na prova e de como é que funciona, na visão dela, o maravilhoso mundo da corrida de rua.
Ontem à noite, me emocionei ao ler o que a moça escreveu. Por dificuldades operacionais (dificuldades operacionais=trabalhando sem parar desde 8horas), só agora tenho condição de postar o texto. Aqui vai:
*
Bom, fui convidada a vir aqui para contar sobre a minha corrida.
Quanto prestígio!
Sim, a minha humilde corrida de 5km!
Humilde porque todas as pessoas que passam por aqui, vejo que correm muuuuiiiiiito mais de 5 km! Hehehehe
Eu não tenho, de forma alguma, a pretensão de correr mais que isso, que para mim já é uma maratona.
Confesso aqui que sempre fugi das aulas de educação física, e que o autor desse blog foi à minha escola, para me conhecer melhor, em um dia de campeonato de vôlei!
(naquele tempo era o auge!)
Hello??????
Realmente ele não me conhecia, e é claro que eu não me encontrava na escola em dia de campeonato! Hahahaha
Nunca fui afeita a atletismos.
Bom, aquela coisa, atrapalha o cabelo, quebram-se as unhas, tênis não é nada glamouroso etc etc.
Daí, acompanhando o autor desse blog, porque posso não ser atleta, mas sou companheira pra car@#$%%, como dizem os meninos, então estive presente em todas as corridas que esse camarada correu.
E sempre me emocionei com a determinação, com o espírito não competitivo que as corridas de rua têm, pois apenas se tem em mente a sua própria superação, o seu próprio combate, a sua própria determinação em vencer mais aquela etapa
Sim, essa foi uma das coisas que aprendi com o autor desse blog.
Iniciei, pois, a passos lentos, literalmente, minha maratona de 5km!
Eneida na MMIBH 2012
E me venci! Calcei, pois, um par de tênis! Oi?!
É, gente boa, e a sensação é realmente maravilhosa, a de vencer a si mesmo, um passo e um dia de cada vez!
Recomendo!
E obrigada, meu beinS2, pela oportunidade de minha humilde contribuição!
@Eneida Freire
HTTP://tengasuperacion.blogspot.com.

Eneida já descansada, de volta ao maravilhoso mundo da moda :)